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Mês: janeiro 2018

A escolha: eu tenho o controle

Quando minha veia da perna inflamou e tive que ficar dias de repouso, muita coisa se passou pela minha cabeça. E eu confesso: chorei muito, como uma criança que se depara sozinha, sem o pai ou a mãe por perto. E senti dentro de mim que eu tinha uma escolha importante para fazer: eu poderia me agarrar na depressão e desistir de tudo, terminar em uma cama esperando que um milagre acontecesse comigo, ou eu poderia enfrentar a situação e tomar as rédeas da minha vida.

Se eu estou escrevendo isso, acredito que você saiba qual opção eu escolhi.

Não é fácil enfrentar uma depressão. Não é fácil combater a obesidade. Os dois juntos, então, parecem ser impossíveis de serem aniquilados. Mas eu encontrei algo dentro de mim, uma frase que fez as coisas mudarem: eu tenho o controle e eu vou vencer.

O diagnóstico: Depressão

Na terapia, também tive que enfrentar uma tremenda palavra: depressão. O diagnóstico veio e me chocou. Como assim estou com depressão? Eu, que sempre estou sorrindo e fazendo graça nas reuniões de família agora estou com depressão? É difícil absorver a informação.

Depressão… Tudo passava a fazer sentido. A alimentação desregrada, quem sabe, era o menor dos problemas. Não se amar vai muito além disso, só que muitas vezes esquecemos disso, principalmente porque o nosso interior ninguém vê. Já nosso tamanho…

Quando você está em depressão, você precisa entender que vai precisar de muita ajuda. No meu caso, fiz baterias e baterias de exames e recebi a receita de medicação. Eu confesso que sempre fui contra medicação, até que eu senti na pele que eu precisava ceder, pois realmente era necessário.

Não pense que a solução de tudo é conseguir uma receita de um antidepressivo. O buraco é bem mais embaixo. Medicação sem terapia simplesmente não resolve, só mascara o problema.

Medicada, consegui me sentir mais no controle da minha vida. Consegui ter calma para agir em diversas situações. Me senti fisicamente mais tranquila e mais preparada para encarar o que surgisse no meu caminho. E, assim, passei a me sentir mais preparada para reconquistar a minha saúde física e o meu amor próprio.

Você sabe, de fato, viver?

Comecei a minha terapia. Eu queria voltar a me amar, queria perder peso, mas não conseguia. Tudo parecia inatingível para mim. Com o passar das conversas e reflexões, me dei por conta que o meu maior problema, pasmem, não era a alimentação. Mas o meu estilo de vida.

Se a sua rotina se resume em acordar, ir pro trabalho, voltar do trabalho, assistir televisão, comer e dormir, acredite, o problema não é dos outros. É teu.

Parece que desaprendemos como se vive. E viver de verdade, não se manter vivo. Com a terapia, vi que um banho demorado, com direito a trilha sonora especial, pode ser um dos grandes momentos renovadores do dia. Momento de encontro. Faça o teste, de verdade. Escolha uma playlist e se dê ao luxo de tomar um banho demorado, com direito a todos os sabonetes e cremes perfumados que você quiser. Você se sente vivo. Você se amou.

Você já parou para pensar porque você come de forma errada? O que você está tentando resolver com uma bela e gigante pizza? Os seus problemas? Meio irracional, não acha?

E aos poucos as coisas começaram a fazer sentido para mim…

Alguém me ajuda, por favor?

Pedir ajuda é difícil. Você escancara para o mundo que você não vai conseguir resolver o seu problema, seja lá qual for. É hora de dar o braço a torcer e estender a mão, esperando que alguém estenda de volta e lhe segure.

Só quem já se sentiu no limite sabe do que estou escrevendo. Sentimos que não vamos conseguir seguir adiante, que não temos forças. É como nadar contra a maré, correr contra um vendaval, lutar contra um gigante. Mas eu pedi ajuda. Pedi ajuda a Deus, ao meu marido, e vi que precisava de um psicólogo.

Sabe aquela clássica frase “todo mundo deveria ir em um psicólogo”? É real. Todo mundo deveria. E eu fui.

Peguei meu notebook, abri um site de pesquisa e comecei a procurar por algum profissional que atendesse perto da minha casa. Encontrei no primeiro clique. Era para lá que eu ia.

Ao adentrar o consultório, a psicóloga sorriu e me perguntou: o que te trouxe aqui? E minha resposta, que demorou para sair, foi: vim para voltar a gostar de mim.

Você pode não gostar de brócolis, do vizinho, ou daquela menina metida do trabalho, mas é duro quando você não consegue gostar de si. Você se olha no espelho e não gosta do que está vendo. Você não sente vontade de se agradar, de se cuidar, pois é insuportável a sensação de se fazer bem. Você sente que não merece. Você se critica o tempo todo, se sente um verdadeiro lixo. E não estou falando apenas em aparências. Você não consegue gostar do seu eu interior.

É praticamente impossível conviver se detestando. O dia pode ser o mais bonito, você pode ter o melhor emprego, mas o seu dia é cinza. Por mais que as pessoas digam que você é ótima, você não se sente assim. E não tem jeito. Você não consegue tolerar elogios.

Sabe o que é se sentir uma aberração? Sentir vergonha de si mesmo? Não querer se expor, não querer se mostrar para os outros? É péssimo.

Obviamente isso tudo se torna uma bola de neve. Se você não está feliz consigo mesma, você não se cuida. Se você não se cuida, a situação só piora. Por que não, você não vai um belo dia acordar extremamente linda, como as atrizes da televisão, assim, do nada. Seus problemas pessoais não vão se resolver do dia pra noite.

A comida como uma fuga

Foi em 2012, após ter tido tentativas de romance muito desastrosas, de muita rejeição (já fui em um encontro e levei bolo. Acredito fielmente que aquela cena de filme, em que a pessoa vê o encontro se arrepende e vai embora, realmente aconteceu comigo) que encontrei o Piero, meu atual marido. De início, tive medo de me entregar, de ser machucada, mas o Piero é um cara incrível e fez eu me sentir linda e muito amada. E é ele que me apoia diariamente, participa junto comigo da luta em perder peso, em cuidar da minha saúde. Com o relacionamento, passei a me sentir muito melhor comigo mesma. Passei a me achar muito linda, “uma pessoa normal”.

Nesse ano, comecei a fazer terapia, principalmente para lidar com minhas dificuldades com a família e também por conta do peso. Comecei a perceber os problemas que tenho em ter que ser aceita por todos, em ver que as pessoas gostam de mim e aprovam minhas decisões, e que eu sou uma pessoa carente, que quer atenção, e que de repente eu usava a comida para chamar a atenção.

Em 2014 eu casei. E o combo saída de casa + eu não sabendo lidar comigo mesma resultou em um período assustador para mim. Passei a não me cuidar, a não tirar o pijama, a não ter vontade de tomar banho. Além disso, passei a evitar espelhos. O único espelho em que eu me olhava era um pequeno, em que eu só enxergava o meu rosto. Eu não estava sabendo lidar comigo mesma.

E a comida surgiu mais uma vez como uma fuga. A gente come para fazer o dia ter algo de bom. A gente come para esquecer. Inconscientemente, a gente come para se prejudicar, visto que o amor próprio já não se encontra mais ali. Por mais que você queira viver, você come sabendo que o resultado não poderá ser bom. Você está querendo sim dar um fim, por mais que racionalmente você diga não.

Fui ganhando peso. 10, 20, 30, 40 quilos. Um atrás do outro, em sequência. Por mais que as roupas ficassem mais apertadas com o tempo, eu fingia que estava tudo bem. Em cada quilo de gordura, ia enterrando dentro de mim o meu amor próprio. Até que me vi em um caminho sem volta.

A vida me avisou que eu tinha que me cuidar, tinha que mudar de vida pelo meu próprio bem. Pelo jeito isso tudo entrou em um ouvido e saiu pelo outro.

Em 2015, tive mais um recado: uma crise de pânico. Eu achava que estava tendo novamente uma trombose. Foi um dos piores dias da minha vida, pois realmente tive uma crise de ansiedade. Eu tinha certeza que eu ia morrer. Meu coração batia acelerado, suava frio, tremia muito. Eu não conseguia respirar. Quem já teve crise de pânico ou de ansiedade sabe o quão traumática é a situação. Depois de fazer exames, recebi a orientação de que estava tudo bem comigo, mas que eu havia tido uma crise.

Naquela época, eu deveria ter parado e retomado o controle da minha vida. Não o fiz.

Muita coisa aconteceu nos meses seguintes. Tentei outras dietas, fiz academia, mas acabei desistindo novamente. E engordando novamente.

Até o dia em que passei mal, senti dores na perna e tive o diagnóstico: flebite em uma veia da perna, novamente a esquerda. Inflamação esta que coagulou e que me fez viver novamente o pesadelo da trombose. Dessa vez, por ser em uma veia superficial, não foi uma situação de risco. Mas somente eu sei o quanto essa vivência impactou minha vida.

Escrevo tudo isso para você entender que não existe idade para o corpo avisar que você está no limite. E a vida sempre nos dá a oportunidade de aprendermos a lição através do amor. Digo isso, porque um mês antes da flebite surgir, o personal trainer da antiga academia que frequentei avisou que poderíamos ir malhar naquele mês, pois havíamos pago e deixado de ir. Eu escolhi ignorar o convite. Eu poderia ter voltado a malhar e a cuidar da alimentação. Provavelmente eu não iria passar por mais um problema de saúde. Mas eu escolhi ficar em casa, sentada no sofá, comendo como se não houvesse o amanhã.

E o amanhã chegou.

Recomeçar é preciso

Após me recuperar da trombose, recomeçar era preciso e iniciei novamente uma dieta e passei a emagrecer e a retomar a minha saúde. Nesta época, encontrei uma nutricionista incrível, nada radical, mas que conseguiu me fazer uma dieta que me deixava tranquila e que me fazia emagrecer muito. Lembro que na primeira consulta ela me entregou um papel, com alguns bonecos desenhados, e pediu para eu sinalizar em qual boneco eu me via. Eram bonequinhos magros, cheinhos, gordos ou obesos mórbidos. E eu me via no último patamar, sendo que eu não estava lá. Lembro que a nutricionista se assustou e perguntou se realmente eu me via naquele tamanho. E sim, eu me via naquele tamanho, mesmo estando muito menor.

Com o tempo, passei a emagrecer e a me sentir muito bem. Obviamente o emagrecimento se intensificou quando minha formatura se aproximava, pois o maior medo que eu tinha era que eu nunca iria encontrar um vestido de formatura que entrasse em mim. Sim, eu tinha esse medo constantemente: que eu não iria encontrar em loja algo que me servisse. E eu encontrei o vestido, me senti linda novamente.

Diagnóstico: Trombose Venosa Profunda

Eu estava na praia, com meus 19 anos de idade, curtindo minhas férias. E nessa época comecei a sentir dores estranhas. Começou com dores nos ombros, nas costas, como se eu estivesse machucada. Fomos em um posto de saúde, onde o médico disse que era mal jeito e que eu estava com pressão alta. Eu? Com pressão alta? Minha pressão sempre era ótima, mas, pelo jeito, a obesidade já estava interferindo de vez na minha saúde. Os dias se passaram e comecei a me sentir mal, com tosse e falta de ar. Fomos para o hospital, onde me diagnosticaram com uma pneumonia atípica. Isso até a noite em que acordei com uma suposta câimbra horrível na batata da perna esquerda. Fiquei com essa dor por alguns dias, até que finalmente voltamos para a cidade e consultei com minha médica de família. O diagnóstico? Trombose Venosa Profunda.

Até hoje não consigo entender como sobrevivi a essa trombose. Fiquei dias com a dor na perna para então procurar ajuda. A falta de ar? Possivelmente uma embolia pulmonar.

Fiquei uma semana internada no hospital. Tive que tomar anticoagulante, fazer exames de sangue semanais, usar meia de compressão. Me sentia envergonhada de ter chegado àquele ponto.

Até hoje, tenho problemas em lidar com a minha perna. Não gosto que encostem na batata da perna, qualquer dor me faz entrar em pânico, com medo de que seja algum problema grave novamente.

O início das minhas dietas

Não lembro muito bem quando comecei a fazer dietas. Me recordo, entretanto, de ir dormir cedo após comer aquelas sopas instantâneas lights, horríveis por sinal, para emagrecer e não sentir fome. Lembro também de ir em uma nutricionista, até o dia em que ela me xingou por não ter emagrecido o esperado para aquela semana.

Como nada estava dando muito certo, comecei a ir em um médico da cidade, para ver se ele via alguma solução para mim. Eu deveria estar com 14 anos e um peso muito mais alto do que o recomendado para a minha idade. Se bobear, o dobro. Passei a fazer a dieta dos pontos, vivia somando e conferindo se o que eu comi totalizava os pontos do dia.

Nessa época, passei também a tomar medicamento para emagrecer. Se eu não me engano, apesar de ser extremamente jovem, o medicamento indicado para mim foi sibutramina.

Emagreci bastante, passei a me gostar e a me sentir “parte da sociedade”, até que quase desmaiei em casa por conta de uma queda de pressão. Aquilo me assuntou, me fez parar de tomar o medicamento e, aos poucos, engordar tudo o que eu havia perdido (e mais).

A época dos meus 15 anos foi a que eu mais gostei de mim mesma. Lembro que eu usava vestido, algo realmente inédito, estava super bronzeada e realmente me achava bonita. Parecia que eu fazia parte do grupo, sabe? As roupas de lojas comuns serviam em mim, não me sentia um monstro.

Mas, nesse tempo em que eu já cuidava da minha alimentação, não percebia que precisava urgentemente corrigir meus sentimentos e pensamentos, principalmente minha relação com a comida e com a vida. Sempre tive problemas em aceitar que as pessoas podiam não gostar de mim, que as amizades poderiam se desfazer. Nunca soube lidar bem com esses fatores. E, sendo sincera, ainda não sei muito bem.

Apesar de eu frequentar um Centro Espírita semanalmente, e sei que o amparo espiritual me segurou em muitos momentos, nunca havia procurado ajuda psicológica e, por isso, nunca aprendi a lidar de fato comigo mesma.

Com o passar dos anos, voltei a engordar, engordar e engordar. Entrei para a faculdade obesa, me sentindo muito grande. E todo este peso me fez passar por um dos momentos mais traumáticos da minha vida.

Quando você passa a se sentir menos

Desde muito nova me vi a gordinha da sala de aula, a bochechuda, a mais pesada do que todas as crianças da turma. Passei a usar o mau humor como forma de defesa. Não foram nem uma e nem duas vezes que ouvi de coleguinhas que eles sentiam medo de mim.

Realmente, sempre fui ranzinza, e acredito que sempre usei a minha brabeza para afastar as pessoas, ou para fazê-las terem medo e não mexerem comigo.

E não, não é fácil lidar com a infância e pré adolescência estando acima do peso. As aulas de educação física sempre eram sinônimo de medo, principalmente quando era atletismo. Não, eu não conseguia correr como as outras crianças. Sim, eu sentia dores, sentia falta de ar, me sentia fora da normalidade.

Não, eu não encontrava com facilidade roupas legais, ou não me vestia tão bem quanto as outras meninas. Não, os meninos não eram apaixonados por mim.

Isso tudo machuca, sabe? Principalmente porque a gente começa, desde cedo, a se achar menos do que os outros, visão totalmente deturpada, mas que eu passei a sentir desde muito nova. E por a gente achar que é menos do que os outros, criamos monstros dentro da gente, que nos fazem mal e que muitas vezes nos acompanham durante muitos anos. Não nos achamos bonitos, tão pouco interessantes. E o que nos ajuda nesses dias difíceis? A comida.

Este conteúdo é exclusivo e pessoal. É necessário pedir autorização à autora para replicar em outros locais e mídias.
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