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A comida como uma fuga

Foi em 2012, após ter tido tentativas de romance muito desastrosas, de muita rejeição (já fui em um encontro e levei bolo. Acredito fielmente que aquela cena de filme, em que a pessoa vê o encontro se arrepende e vai embora, realmente aconteceu comigo) que encontrei o Piero, meu atual marido. De início, tive medo de me entregar, de ser machucada, mas o Piero é um cara incrível e fez eu me sentir linda e muito amada. E é ele que me apoia diariamente, participa junto comigo da luta em perder peso, em cuidar da minha saúde. Com o relacionamento, passei a me sentir muito melhor comigo mesma. Passei a me achar muito linda, “uma pessoa normal”.

Nesse ano, comecei a fazer terapia, principalmente para lidar com minhas dificuldades com a família e também por conta do peso. Comecei a perceber os problemas que tenho em ter que ser aceita por todos, em ver que as pessoas gostam de mim e aprovam minhas decisões, e que eu sou uma pessoa carente, que quer atenção, e que de repente eu usava a comida para chamar a atenção.

Em 2014 eu casei. E o combo saída de casa + eu não sabendo lidar comigo mesma resultou em um período assustador para mim. Passei a não me cuidar, a não tirar o pijama, a não ter vontade de tomar banho. Além disso, passei a evitar espelhos. O único espelho em que eu me olhava era um pequeno, em que eu só enxergava o meu rosto. Eu não estava sabendo lidar comigo mesma.

E a comida surgiu mais uma vez como uma fuga. A gente come para fazer o dia ter algo de bom. A gente come para esquecer. Inconscientemente, a gente come para se prejudicar, visto que o amor próprio já não se encontra mais ali. Por mais que você queira viver, você come sabendo que o resultado não poderá ser bom. Você está querendo sim dar um fim, por mais que racionalmente você diga não.

Fui ganhando peso. 10, 20, 30, 40 quilos. Um atrás do outro, em sequência. Por mais que as roupas ficassem mais apertadas com o tempo, eu fingia que estava tudo bem. Em cada quilo de gordura, ia enterrando dentro de mim o meu amor próprio. Até que me vi em um caminho sem volta.

A vida me avisou que eu tinha que me cuidar, tinha que mudar de vida pelo meu próprio bem. Pelo jeito isso tudo entrou em um ouvido e saiu pelo outro.

Em 2015, tive mais um recado: uma crise de pânico. Eu achava que estava tendo novamente uma trombose. Foi um dos piores dias da minha vida, pois realmente tive uma crise de ansiedade. Eu tinha certeza que eu ia morrer. Meu coração batia acelerado, suava frio, tremia muito. Eu não conseguia respirar. Quem já teve crise de pânico ou de ansiedade sabe o quão traumática é a situação. Depois de fazer exames, recebi a orientação de que estava tudo bem comigo, mas que eu havia tido uma crise.

Naquela época, eu deveria ter parado e retomado o controle da minha vida. Não o fiz.

Muita coisa aconteceu nos meses seguintes. Tentei outras dietas, fiz academia, mas acabei desistindo novamente. E engordando novamente.

Até o dia em que passei mal, senti dores na perna e tive o diagnóstico: flebite em uma veia da perna, novamente a esquerda. Inflamação esta que coagulou e que me fez viver novamente o pesadelo da trombose. Dessa vez, por ser em uma veia superficial, não foi uma situação de risco. Mas somente eu sei o quanto essa vivência impactou minha vida.

Escrevo tudo isso para você entender que não existe idade para o corpo avisar que você está no limite. E a vida sempre nos dá a oportunidade de aprendermos a lição através do amor. Digo isso, porque um mês antes da flebite surgir, o personal trainer da antiga academia que frequentei avisou que poderíamos ir malhar naquele mês, pois havíamos pago e deixado de ir. Eu escolhi ignorar o convite. Eu poderia ter voltado a malhar e a cuidar da alimentação. Provavelmente eu não iria passar por mais um problema de saúde. Mas eu escolhi ficar em casa, sentada no sofá, comendo como se não houvesse o amanhã.

E o amanhã chegou.

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